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NÚCLEO DE ESTUDOS EM HISTÓRIA DEMOGRÁFICA

BOLETIM DE HISTÓRIA DEMOGRÁFICA

Ano I, Número 1 - Abril de 1994

SUMÁRIO

Apresentação

Pesos e Medidas

"Agregado"

Resenhas

Resumos

Pesquisas em Andamento

Publicações Recebidas

Aos Colaboradores

 

Editores deste número: Iraci Costa & Renato Leite Marcondes.

 

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APRESENTAÇÃO

Neste primeiro número de nosso Boletim apresentamos artigos que podem revelar-se úteis aos que se iniciam no estudo da história econômica ou no da formação populacional do Brasil. Além de tratarmos dos pesos e medidas adotados no período colonial e que, praticamente, vigoraram até o fim do segundo Império, ocupa-nos, também, a procura de uma definição da categoria "agregado" que se mostre apta a abarcar as várias dimensões sócio-econômicas assumidas, entre nós, por esta condição. Estampamos, ainda, as seções resenhas, pesquisas em andamento e publicações recebidas, bem como resumos de alguns trabalhos elaborados por integrantes de nosso grupo de pesquisadores.

 

ARTIGO

PESOS E MEDIDAS NO PERIODO COLONIAL BRASILEIRO:

DENOMINAÇÕES E RELAÇÕES.

Iraci del Nero da Costa

Observações Preliminares

Estas notas visam, tão-somente, a servir como uma primeira orientação aos estudantes de graduação e de pós-graduação que se iniciam nas áreas da história econômica e da demografia histórica. Como sabido, os mesmos deparam-se, ao compulsarem fontes documentais do passado, com um sistema de medidas muitas vezes adaptado às condições concretas defrontadas pelo colonizador e, em alguns casos, distinto do adotado na metrópole. As medidas, ademais, apresentam variações tanto no correr do tempo como no referente ao espaço geográfico, assim a mesma medida podia expressar um valor numa capitania e outro em uma capitania vizinha; mais ainda, numa mesma capitania aquele valor podia variar. O mesmo ocorria com respeito ao tempo e, pior ainda, de um documento para outro também é possível observar largas disparidades. Ao neófito este cipoal pode parecer impenetrável; não obstante reconheçamos tais dificuldades, parece-nos imperioso enfrentar, ainda que parcialmente, esta questão. É este, justamente, o objetivo deste artigo; o qual, diga-se desde logo, não se pretende exaustivo bem como não deve ser tomado como um sucedâneo da pesquisa a ser empreendida pelos interessados; análise esta que, como avançado, deve ter início com a consideração dos documentos que estiverem a ser trabalhados e espraiar-se na demanda de informações adicionais, as quais podem ser hauridas em outras fontes documentais, tanto impressas como manuscritas, bem como na literatura historiográfica disponível. Repisando a idéia de que não estamos a apresentar "o" sistema de medidas, nem "as" relações de equivalência e tendo em conta que a conversão para o sistema métrico encerra dificuldades que necessariamente terão de ser enfrentadas no âmbito de cada pesquisa, pois os vários autores que se debruçaram sobre o tema adotaram diferentes fatores de conversão, restringir-nos-emos, neste artigo, aos elementos que encerram um maior nível de concordância entre distintos autores, quais sejam: a designação das medidas e as relações que as mesmas, em princípio, deveriam manter entre si. Destarte, caberá a cada pesquisador, quando for efetuar a conversão, optar pelos valores que lhe parecerem apropriados. Visando a oferecer subsídio para tal decisão, arrolamos, nas referências bibliográficas abaixo colocadas, algumas obras que versam sobre o tema e que reportam, ademais, fontes bibliográficas complementares às ali relacionadas.

 

I. MEDIDAS DE COMPRIMENTO E ITINERÁRIAS

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Denominação Relação de equivalência
______________________________________________________________
Ponto..................................................................... 1 ponto
Linha..................................................................... 12 pontos
Polegada................................................................ 12 linhas
Palmo.................................................................... 8 polegadas
Pé.......................................................................... 1,5 palmos
Côvado.................................................................. 24,75 polegadas
Vara....................................................................... 5 palmos
Alna....................................................................... 1,2 varas
Passo geométrico................................................... 7,5 palmos
Braça..................................................................... 2 varas
Légua.................................................................... 3.000 braças
Milha marítima........................................................ 843,23 braças
Légua de 25 ao grau............................................. 2.023,7 braças
Légua de 20 ao grau............................................. 2.529,7 braças
Légua marítima..................................................... 1 légua de 20 ao grau
Légua de 18 ao grau............................................ 2.810,7 braças
Grau do Equador................................................. 50.593,64 braças
________________________________________________________________

 

 

II. MEDIDAS DE ÁREA

___________________________________________________________
Denominação Relação de equivalência
___________________________________________________________
Polegada quadrada................................... 44 linhas quadradas
Palmo quadrado........................................ 64 polegadas quadradas
Pé quadrado.............................................. 2,25 palmos quadrados
Braça quadrada......................................... 100 palmos quadrados
Geira.......................................................... 400 braças quadradas
Alqueire de São Paulo............................... 5.000 braças quadradas
Alqueire de Minas Gerais.......................... 10.000 braças quadradas
Alqueire do Rio de Janeiro....................... 10.000 braças quadradas
Quartel....................................................... 1/4 de alqueire
Légua de sesmaria..................................... 9.000.000 de braças quadradas
___________________________________________________________

 

 

IIIa. MEDIDAS DE VOLUME E CAPACIDADE

__________________________________________________________
Denominação Relação de equivalência
__________________________________________________________
Polegada cúbica.............................................. 1.728 linhas cúbicas
Palmo cúbico.................................................. 512 polegadas cúbicas
Pé cúbico........................................................ 3.375 palmos cúbicos
Braça cúbica................................................... 1.000 palmos cúbicos
__________________________________________________________

 

IIIb. MEDIDAS DE VOLUME E CAPACIDADE PARA SECOS

__________________________________________________________
Denominação Relação de equivalência
__________________________________________________________
Celamim (ou selamim)...................................... 1 celamim
Maquia.............................................................. 2 celamins
Quarta............................................................... 4 maquias
Alqueire............................................................ 4 quartas
Fanga................................................................ 4 alqueires
Moio..............(60 alqueires)............................. 15 fangas
__________________________________________________________

 

IIIc. MEDIDAS DE VOLUME E CAPACIADE PARA LÍQUIDOS

__________________________________________________________
Denominação Relação de equivalência
__________________________________________________________
Quartilho.................................................... 1 quartilho
Canada....................................................... 4 quartilhos(*)
Medida....................................................... 4 quartilhos(*)
Medida....................................................... 1,5 canadas(**)
Almude...................................................... 12 canadas
Quartola..................................................... 1/2 pipa
Pipa............................... grande variação: de 21 a 30 almudes
Tonel......................................................... 2 pipas
__________________________________________________________
(*) para SIMONSEN, tais medidas seriam iguais no Rio de Janeiro.
(**) relação adotada por LISANTI.
Obs.: Recomenda-se especial atenção quanto às medidas de líquidos
pois elas apresentavam grandes variações, mesmo quanto às relações
que manteriam entre si.
 

IV. MEDIDAS DE PESO

__________________________________________________________
Denominação Relação de equivalência
__________________________________________________________
Grão............................................................. 1 grão
Quilate (pedras preciosas).......................... 4 grãos
Quilate......................................................... 18 grãos
Escrópulo ou Dinheiro............................... 24 grãos
Oitava........................................................... 3 escrópulos
Onça............................................................. 8 oitavas
Marco........................................................... 8 onças
Libra de botica............................................ 12 onças
Arrátel ou Libra.......................................... 2 marcos
Arroba.......................................................... 32 arráteis
Quintal......................................................... 4 arrobas
Tonelada.(13,5 quintais)............................. 1.728 arráteis
Tonelada marítima...................................... 2.000 arráteis
__________________________________________________________
Obs.: a tonelada brasileira não equivalia a 1.000 kg.

 

V. OUTRAS MEDIDAS

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Denominação Observações/Relações
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Mão.......................... usada para milho não debulhado (espigas).
Carro......................... usada para milho.
Mão de linho........... usada para linho, cerca de 4 a 5 estrigas.
Pedra ....................... 8 arráteis de linho depois de gramado.
Efusal........................ 1/4 da pedra.
Elo............................ 1/8 da pedra.
Ancorete.................... usada para líquidos, especialmente bebidas.
_____________________________________________________
Obs.: estas medidas apresentavam grandes variações.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Anônimo. Descrição do Estado do Brasil, suas capitanias, produções e comércio: com introdução de José Honório Rodrigues. Revista de História da Economia Brasileira. São Paulo, FIESP, ano 1, número 1, junho de 1953, p. 83-99.

BRITO, José Gabriel de Lemos. Pontos de partida para a história econômica do Brasil. São Paulo/Brasília, Ed. Nacional/INL, 3a. ed., 1980, (Brasiliana, v. 155), p. 352-355.

Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Lisboa/Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Limitada, s/d, vários volumes.

LISANTI FILHO, Luís. Negócios Coloniais. São Paulo, Ministério da Fazenda/Visão Editorial, 1973, v. I, p. LXXIX-CI.

LUNÉ, Antonio José Baptista de & FONSECA, Paulo Delfino da (organizadores). Supplemento ao almanak de São Paulo para 1873, Almanak da Província de São Paulo para 1873, reprodução fac-similada da edição publicada pela Typographia Americana em 1873, p. 25-33.

SILVA, Antonio de Moraes. Dicionário da língua portuguesa. Lisboa, Typographia Lacérdina, 1813. Existem outras edições do assim chamado MORAES, todas são grandemente úteis.

SIMONSEN, Roberto C. História econômica do Brasil (1500-1820). São Paulo, Ed. Nacional, 6a. ed., p. 462-463, (Brasiliana – Série Grande Formato, v. 10).

 

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ARTIGO

POR UMA DEFINIÇÃO ABRANGENTE DA CATEGORIA "AGREGADO".

Iraci del Nero da Costa

Na literatura historiográfica brasileira, via de regra, os agregados são tidos como pessoas que mantinham relações de subordinação e/ou dependência econômica vis-à-vis os chefes de domicílios (ou fogos, como se dizia antigamente) aos quais achavam-se vinculadas. Não seria exagero afirmar-se que, para nossos pesquisadores, tal categoria definia-se como mera extensão da mão-de-obra familiar ou como sucedâneo, adequado à época, da força de trabalho escrava. Conquanto tal caracterização nos pareça pertinente quando considerada a grande maioria dos casos, a mesma mostra-se insuficiente quando pensada a totalidade das pessoas identificadas como agregadas. Ao se compulsar documentos coevos ressaltam verdadeiras "aberrações" que não se "encaixam" nas definições assumidas aprioristicamente e que pressupõem a aludida dependência.

Em face do exposto impõe-se, a nosso juízo, a necessidade de procurarmos uma definição mais abrangente, capaz de abarcar, globalmente, os casos empiricamente observáveis e que se revele, portanto, mais próxima da perspectiva adotada por nossos antepassados.

Nestas breves notas apresentamos uma caracterização que nos parece apropriada, mas que, necessariamente, deverá passar pelo crivo da confrontação empírica; vejamo-la.

"Definiam-se como agregados os indivíduos que se incorporassem a domicílios já constituídos e que, por via de conseqüência, passassem a manter com os chefes dos mesmos um relacionamento de caráter pessoal que assumiu historicamente as mais diversas formas, excluídas a subordinação absoluta (escravismo) ou condicional (feudalismo) e, evidentemente, o assalariamento puro e simples. Também podiam passar a ser considerados agregados os que, embora já integrantes do domicílio, viessem a experimentar importante mudança de status; tomado, este último termo, em sua mais larga acepção."

No aguardo de estudos que corroborem ou qualifiquem a definição ora proposta, furtamo-nos de apresentar neste texto suas eventuais "vantagens", escusando-nos, ademais, de justificar circunstanciadamente os termos empregados.

 

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RESENHA

FRAGOSO, João Luís Ribeiro. Homens de Grossa Aventura e Hierar quia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1992.

O trabalho em tela constitui valiosa contribuição à nossa historiografia. Corresponde aos quatro primeiros capítulos da tese de doutorado do autor intitulada: Comerciantes, Fazendeiros e Formas de Acumulação em uma Economia Escravista Colonial: Rio de Janeiro (1790-1888)", UFF, 1990.

A obra foi uma das primeiras a realizar uma reinterpretação dos modelos explicativos da economia colonial à luz das contribuições trazidas pelos pesquisadores nos últimos vinte anos; a estes estudos, Fragoso somou corpos documentais inéditos. Ainda que se possa criticar a abrangência da bibliografia sobre a totalidade das principais contribuições dos últimos vinte anos, é inegável o seu cunho pioneiro nesta tarefa. Ademais, como avançado, o autor serviu-se de vastas fontes primárias disponíveis: inventários, escrituras de compra/venda e hipotecas, registros de tropeiros e termos de entradas de embarcações entre outros documentos. Fragoso, baseado em tais fontes, analisou as formas de acumulação da economia mercantil-escravista na "praça mercantil" do Rio de Janeiro, a qual englobava toda a região Sul e Sudeste.

Este conjunto de informações permitiu-lhe uma aproximação crítica aos modelos explicativos tradicionais (Caio Prado Jr., Celso Furtado, Fernando Novais), contudo devemos considerar que para o período contemplado na obra em foco estes autores não são tão rígidos quanto aos seus modelos explicativos. Fragoso procurou ressaltar a importância da "acumulação endógena" (relacionada às atividades ligadas ao abastecimento interno), do "mercando interno" (locus em que se daria a acumulação endógena) e do "capital mercantil residente" (grupo mercantil residente na colônia que realiza a acumulação) na economia colonial. Destarte, verificou a complexidade dessa economia que não poderia mais ser definida como simplesmente uma plantation, escravista, monocultora.

A reprodução do "sistema escravista exportador", como a rápida montagem da economia açucareira em Campos ou da economia cafeeira no Vale do Paraíba, deve ser entendida a partir da nova conceituação da economia colonial: "Com isso, não queremos dizer que a economia considerada não fosse escravista e exportadora (esses são os seus traços estruturais mais amplos) e nem que ela não estivesse subjugada às conjunturas do mercado internacional. Entretanto, para além desses traços, a economia colonial tinha outras características estruturais. Possuía outras formas de produção (ao lado da escravista) e um mercado interno, espaço no qual se realizariam acumulações endógenas. A conjugação desses elementos permitia que a economia colonial tivesse uma dinâmica interna e peculiar que não se reduzia às injunções externas." (p. 26-7).

A existência de escravos em atividades relacionadas com o mercado interno e de formas de produção não-capitalistas e não--escravistas condiciona a reinterpretação da economia colonial. As informações lhe possibilitaram afirmar que "cabalmente a sociedade colonial não se resumia a grandes senhores e escravos" (p. 101), pois outras formas de trabalho, como o camponês e o escravo fora das atividades exportadoras seriam largamente utilizados na colônia. Todavia, as formas de produção não-capitalistas, como o trabalho camponês, propiciavam uma mão-de-obra de baixo custo monetário, reduzindo os preços dos bens direcionados ao mercado interno. O baixo custo do trabalho e das terras permitia que nem todo o excedente retornasse à produção, podendo ser apropriado pelo capital mercantil. Assim, todos os movimentos realizados no âmbito do mercado interno formariam a acumulação interna. Até mesmo o tráfico atlântico de africanos para o Brasil, desde meados do século XVIII, seria considerado "um negócio interno à economia do Sudeste brasileiro. E isso por uma boa razão: ele era controlado por negociantes residentes no Brasil" (p. 131-2). Assim, quando a aristocracia escravista/territorial exportadora se abastece no mercado interno com bens originados de formas não-capitalistas, ou de escravos, parte do excedente seria retido na acumulação interna. Esta retenção do sobretrabalho da plantation ocorre pela existência de uma "elite mercantil colonial autônoma" (residente), que, além de vender os bens no mercado interno, chegou a financiar o custeio da empresa exportadora. A extração do excedente se dá pela circulação e em grande parte favorece a acumulação mercantil.

Convém, a esta altura, colocar o questionamento de Fragoso: "(...) se parte do trabalho excedente colonial assume a forma de uma acumulação mercantil, a repetição deste fenômeno, mais cedo ou mais tarde, em tese inviabilizaria a própria continuidade física da economia, já que acumulação mercantil significa desvio do sobretrabalho da produção." (p. 34).

A "categoria antediluviana" é o capital mercantil, o qual por uma lógica não-capitalista, em função de uma hegemonia de relações de poder (de homens sobre homens), obrigava os que o personificavam, para ascenderem socialmente na "hierarquia econômico-social" a se constituírem como senhores de homens (escravistas) e proprietários de terras, mesmo se na passagem da elite mercantil para a de proprietários dos meios de produção e mão-de--obra cativa eles viessem a perder dinheiro e deixar de integrar a elite econômica (Cf. p. 35). Neste processo ocorria uma esterilização da acumulação mercantil para a esfera da produção. Este processo produziu uma contínua recriação dos sistemas agrários em áreas de fronteira e, assim, a reprodução da formação econômico--social colonial, possibilitada pela apropriação do trabalho excedente não só do escravo como do camponês.

Cumpre, por fim, comentar as comparações entre os preços internos e os externos como uma estimativa do dinamismo econômico relativo da colônia frente às economias centrais. Tal confronto não é aceitável pois, no período, ocorreu uma desvalorização cambial, principalmente na terceira década do século XIX, de 4,65 (em 1821), para 10,49 mil réis por libra, em 1830. Tal crítica não compromete a tese esposada por Fragoso, mas, apenas, a forma pela qual podemos perceber os desenvolvimentos diferenciados, já que por outros indicadores provavelmente observaremos o processo.

 

RENATO LEITE MARCONDES (IPE-USP)

 

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RESUMOS

MARCONDES, Renato Leite. Desenvolvimento da Produção e o Comportamento dos Preços na Constituição da Economia Cafeeira Lorenense (1797-1829). São Paulo, FEA-USP, 1992, mimeo.

Neste trabalho procuramos qualificar a afirmativa de Celso Furtado sobre a importância da economia de subsistência para o surgimento da economia cafeeira, estudando a evolução da produção agrícola da localidade de Lorena, localizada no Vale do Paraíba Paulista. Para tanto, baseamo-nos nas Listas Nominativas, para os anos de 1797, 1798, 1818 e 1829. O desenvolvimento da cafeicultura, com o crescimento exponencial da produção neste período, não nos pareceu excluir a produção de subsistência ou a produção da aguardente, do açúcar e de rapaduras. Por outro lado, a introdução do café se fez, inicialmente, pelos pequenos produtores, em sua maioria não-proprietários que cultivavam bens de subsistência, enquanto os grandes proprietários, concentrados nos bens derivados da cana-de-açúcar, somente mais tarde aderiram à cafeicultura. Contudo, quando estes agricultores passaram a produzir café, o fizeram em larga escala, alocando nesta lida grande parte de sua escravaria. Em 1829, cerca de um terço dos agricultores produziam café, mas também cultivavam bens de subsistência e outros gêneros de exportação.

MARCONDES, Renato Leite. Trabalho e Cafeicultura: Estudo das dinâmicas demográficas e econômicas fluminenses (1780-1840). Anais do III Encontro da ABET, 1993.

Procuramos compreender o desenvolvimento demo-econômico do Rio de Janeiro entre 1780 e 1840. Para tanto, utilizamos três mapas da população do Rio de Janeiro por freguesias. A partir destas informações, acompanhamos o evolver populacional de quatro áreas distintas: a açucareira, a cafeeira, a do município do Rio de Janeiro e uma última agregando as freguesias restantes. Evidenciamos, assim, a transformação demográfica e econômica do Rio de Janeiro em face da introdução do café. Além disto, contemplamos os movimentos migratórios, tanto por condição social como por sexo, entre as áreas identificadas acima.

MOTTA, José Flávio. A família escrava e a penetração do café em Bananal, 1801-1829. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 5, n. 1, p. 71-101, jan./jun. 1988.

Verifica-se neste artigo a importância das relações familiares existentes entre os cativos de Bananal (SP) nas três primeiras décadas do século dezenove. Procura-se, ademais, captar os efeitos, sobre a família escrava, da introdução e disseminação da lavoura cafeeira, ocorridas naquela localidade no período em questão. Conclui-se que a família escrava em Bananal apresenta uma evolução cíclica, a qual acompanha a gênese e o desenvolvimento da cafeicultura, denotando, simultaneamente, sua vulnerabilidade com respeito ao meio escravista inclusivo e sua força enquanto efetiva estratégia de sobrevivência empregada pelos próprios cativos. As fontes primárias que embasam a análise são as listas nominativas de habitantes, em especial as de 1801, 1817 e 1829.

MOTTA, José Flávio. Família escrava: uma incursão pela historiografia. História: Questões & Debates, v. 9, n. 16, p. 104-159, jun. 1988.

Discute-se neste artigo o tratamento dado pela historiografia à família escrava. De início, toma-se o caso brasileiro, enfocando-se a interpretação segundo a qual pouca ou nenhuma relevância é atribuída à família escrava, enfatizando-se as relações sexuais entre cativos em seu aspecto meramente instintivo, delineando-se um quadro de promiscuidade generalizada. Em seguida, a perspectiva é deslocada para o caso dos Estados Unidos. Mostra-se como, nos anos setenta deste século, firma-se naquele país uma nova e vigorosa vertente historiográfica que traz à luz um entendimento das relações familiares entre os cativos diferente do "tradicional": acentua-se a estabilidade e relativa autonomia da família escrava e o predomínio das uniões monogâmicas. Finalmente, retoma-se a análise da historiografia brasileira, pois, também em nosso país, o decênio de 1970 marca uma mudança no enfoque da família escrava, com resultados análogos aos encontrados nos Estados Unidos: uma família cativa mais estável do que até então se acreditara e que, não obstante em grande medida tendo seu desenvolvimento cerceado pelo regime escravista inclusivo, mantinha-se até com relativa autonomia; isto apesar da presença, sem dúvida constrangedora, do proprietário, mas amiúde mesmo se utilizando da feição paternalística deste como estratégia para sua própria sobrevivência.

MOTTA, José Flávio. Corpos escravos, vontades livres: estrutura da posse de cativos e família escrava em um núcleo cafeeiro (Bananal, 1801-1829). Tese de Doutoramento. São Paulo: FEA/USP, 1990. (mimeografado)

A introdução e rápida disseminação da lavoura cafeeira e uma evolução demográfica marcada pela entrada maciça de escravos constituem elementos fundamentais do desenvolvimento de Bananal (Vale do Paraíba-SP) nas décadas iniciais do século dezenove. Tendo como pano-de-fundo o mútuo condicionamento existente entre aqueles elementos, este trabalho vota-se ao estudo de dois temas basilares da economia e da demografia da escravidão: a estrutura da posse de cativos e a família escrava. Com base nas listas nominativas de habitantes, em especial as de 1801, 1817 e 1829, observa-se que a estrutura da posse de cativos e a família escrava evoluíram de forma interligada no decurso do período considerado. Mais ainda, o desenvolvimento demo-econômico de Bananal imprimiu àquela evolução um ritmo marcado pelo dinamismo. Em meio a esse dinamismo, no relacionamento recíproco entre estrutura de posse e família escrava, a influência maior foi sempre exercida pelo primeiro desses elementos. De fato, nos primeiros lustros dos Oitocentos, a família cativa foi como que arrebatada pelo turbilhão cafeeiro. Não obstante, as relações familiares entre os escravos não desapareceram de todo e, inclusive, pareciam estar prestes a vivenciar uma fase menos adversa, à medida que a cafeicultura trilhava seu caminho em direção a uma agricultura de plantation.

MOTTA, José Flávio. O advento da cafeicultura e a estrutura da posse de escravos (Bananal, 1801-1829). Estudos Econômicos, v. 21, n. 3, p. 409-434, set./dez. 1991.

Este trabalho analisa a evolução da estrutura da posse de escravos em Bananal (SP) em meio à fase inicial do desenvolvimento cafeeiro naquela região, com base nas listas nominativas de habitantes, em especial as de 1801, 1817 e 1829. Procura-se, pois, captar os efeitos daquele desenvolvimento sobre os padrões de distribuição da propriedade escrava. Adicionalmente, delineiam-se algumas das características da população cativa acompanhando-se, outrossim, o seu evolver no decurso do período considerado. Verifica-se que, num primeiro momento, a difusão da cafeicultura aparentemente contribuiu para a conformação de um ambiente propício à proliferação dos escravistas de menor porte. Com o tempo, porém, a atividade cafeeira dá mostras de evoluir decididamente no sentido de uma agricultura de plantation. Concomitantemente a essa evolução, alteram-se as características demográficas da população cativa: aumenta a importância dos escravos homens, dos africanos e daqueles em idade produtiva, bem como dos cativos solteiros.

MOTTA, José Flávio. O trabalho livre e a gênese da cafeicultura paulista. Anais do II Encontro Nacional de Estudos do Trabalho. São Paulo: ABET-FEA/USP, 1991, p. 363-372.

O objetivo deste trabalho é o estudo dos indivíduos livres de Bananal (SP), não-proprietários de escravos, em meio à evolução demo-econômica ocorrida naquela localidade nas três primeiras décadas do século dezenove. Analisam-se algumas características do segmento populacional formado por aquelas pessoas para as quais o desempenho de suas atividades/ocupações fundava-se no seu próprio trabalho, possivelmente no de seus dependentes e, eventualmente, no de seus agregados, sendo estes, dependentes e agregados, igualmente incluídos no segmento analisado. Examinam-se, sobretudo, os efeitos, vivenciados por tais indivíduos, decorrentes da rápida disseminação da lavoura cafeeira na região. Introduzida com base na mão-de-obra de pequenos agricultores não-proprietários de escravos, a cafeicultura, caracterizando-se como uma atividade econômica viável seja para indivíduos com maiores ou com menores recursos, difundiu-se significativamente entre os não-escravistas. Não obstante, com o passar do tempo, o cultivo do café punha-se cada vez mais como objeto da grande lavoura. Sua disseminação entre os grandes proprietários de cativos implicou a perda da importância relativa - efetiva "diluição" - da produção dos não-escravistas. Tal diluição não acarretou, cabe ressaltar, solução de continuidade à ampliação da cafeicultura entre aqueles que não usufruíam da propriedade escrava.

MOTTA, José Flávio & COSTA, Iraci del Nero da. Vila Rica: Inconfidência e crise demográfica. Estudos Econômicos, v. 22, n. 1, p. 321-346, maio/ago. 1992.

Neste artigo é analisada a crise demográfica vivenciada por Vila Rica a partir dos anos sessenta do século dezoito e que se tornou mais aguda nas décadas seguintes, assumindo feições dramáticas nos anos que antecedem imediatamente o movimento da Inconfidência. Nesse contexto, pretende-se identificar tal crise, que se desenvolveu na esteira do esgotamento da produção mineratória , como um dentre os elementos condicionantes da conformação de um cenário marcado pela disseminação da pobreza, no qual aflorará o episódio da Conjuração Mineira. Para a consecução deste objetivo recorreu-se a diversos relatos de viajantes, a interpretações constantes de nossa historiografia e, sobretudo, às fontes primárias representadas pelos registros de casamentos, nascimentos e óbitos da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias - uma das duas então existentes em Vila Rica - , concernentes ao período 1740-1800.

MOTTA, José Flávio & NOZOE, Nelson. Cafeicultura e acumulação. Relatório de pesquisa. São Paulo: FIPE/USP, 1993. (mimeografado)

O objetivo desta pesquisa é o estudo dos primórdios da acumulação fundada na atividade cafeeira em São Paulo, mediante o acompanhamento exaustivo, ano a ano, entre 1799 e 1829, dos domicílios, um a um, dos habitantes da localidade valeparaibana de Bananal e que eram produtores de café no último dos anos do período aludido. O processo acumulativo vivenciado por esses indivíduos será avaliado com base no evolver do montante da escravaria por eles possuída. A análise fundamenta-se, sobretudo, nas listas nominativas de Bananal, preservadas para a maioria dos anos do intervalo contemplado. Os domicílios em questão foram rastreados até o primeiro ano em que passaram a constar dos recenseamentos ou até 1799. Verificou-se, claramente, a existência de ritmos diferenciados de acumulação. Num primeiro momento, anterior à difusão da rubiácea na região, tal diferenciação colocava-se entre partícipes e não-partícipes do mercado. Em seguida, essa distinção viu-se estremecida e ao mesmo tempo reafirmada, sob novas formas, entre cafeicultores e não-cafeicultores. Por fim, a acumulação mostrou-se divergente, internamente à cafeicultura, consoante o porte econômico dos indivíduos dedicados àquela atividade.

 

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PESQUISAS EM ANDAMENTO

ESCRAVOS COLONIAIS, ESCRAVOS AFRICANOS: REFLEXÕES A PARTIR DA HISTÓRIA DEMOGRÁFICA, por José Flávio Motta, Prof. da FEA-USP.

 

Esta pesquisa é dedicada ao estudo da distribuição da população escrava, no Brasil dos séculos XVIII e XIX, segundo a origem, em cativos coloniais (assim entendidos os escravos aqui nascidos) e africanos. Tal estudo é baseado em amplo levantamento da produção recente no campo da história demográfica que contemple o tema em questão.

Os informes presentes nos trabalhos compulsados, bem como as interpretações que eventualmente os acompanhem, permitem avaliar o estágio atual de algumas discussões de interesse na historiografia, como a ocorrência de um crescimento vegetativo positivo da massa escrava, ainda que em locais e situações específicos, e a vinculação entre o evolver da participação relativa de cativos coloniais e africanos no total da escravaria e a atividade econômica empreendida.

 

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PUBLICAÇÕES RECEBIDAS

BARCELOS, Luiz Cláudio & CUNHA, Olívia Maria Gomes da & ARAÚJO, Tereza Cristina Nascimento. Escravidão e relações raciais no Brasil: Cadastro da produção intelectual (1970-1990), Rio de Janeiro, Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 1991.

BRIOSCHI, Lucila R. et alii. Entrantes no sertão do Rio Pardo: o povoamento da Freguesia de Batatais - séculos XVIII e XIX, São Paulo, Centro de Estudos Rurais e Urbanos, 1991.

MARCÍLIO, Maria Luíza. Santé et mort dans la ville impériale de Rio de Janeiro, 1830-1889. In: MESURER et COMPRENDRE. Mélanges offerts à Jacques Dupâquier. Paris: P.U.F., 1993.

NISHIDA, Mieko. Manumission and ethnicity in urban slavery: Salvador, Brazil, 1808-1888. Hispanic American Historical Review, v. 73, no. 3, p. 361-391, august 1993.

RAMOS, Donald. From Minho to Minas: the portuguese roots of 1993 the mineiro family. Hispanic American Historical Review, v. 73, no. 4, p. 639-662, november, 1993.

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Herança no Brasil Colonial: os bens vinculados. Revista de Ciências Históricas. Porto: Universidade Portucalense Infante D. Henrique, v. V, p. 291-319, 1990.

 

Os livros, cópias de artigos publicados e exemplares de monografias, de dissertações e de teses que nos forem enviados, serão regularmente divulgados nesta seção e incorporados ao acervo da Biblioteca da FEA-USP.

BHD – Iraci Costa.
R. Dr. Cândido Espinheira, 823, Ap. 21.
05004-000, São Paulo, SP.
BRASIL.

 

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AOS COLABORADORES

Estamos interessados em receber notas de pesquisa em andamento, resumos, resenhas e artigos concernentes à área de estudos populacionais. Por razões de ordem técnica, ainda não nos é possível a publicação de gráficos, fotos e mapas.

Reiteramos, ademais, a solicitação da remessa de trabalhos já publicados e concernentes à nossa área de especialização. Além de divulgados neste Boletim, eles serão incorporados ao acervo da Biblioteca da FEA-USP. Caso remanesçam dúvidas entre em contato conosco.

 

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